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PD 01

Primeira história originada do meu projeto "One line of story a day takes the block away", também chamado carinhosamente de "Projeto Desenferrugem". No básico, todos os dias vou escrever qualquer coisa baseado em prompts aleatórios que vou pegando por aí. Divertido, não é? Espero que funcione para me fazer voltar a escrever!



Prompt: spruce (palavra em inglês para picea, um gênero de coníferas também chamadas de espruce e pícea)
Mundo: meu projeto de novela, Nightingale)
Contador: 503 palavras

  A rabiola amarela balançava suavemente ao vento. Por que a Deusa não poderia transformar aquela brisa em um momentâneo furacão? Charlie ainda estava dolorido pela tentativa de escalar a pícea, mas não o suficiente para impedí-lo de rezar, como sua mamãe bem havia o ensinado a fazer em momentos de desespero.
  Essa era, com certeza, uma hora desesperadora o suficiente para apelar às forças maiores. As mãozinhas e joelhos ralados foram de encontro ao chão, a cabeça de fios castanhos abaixada e os olhos negros fortemente fechados.
  Concentrou-se em seu pedido, mas nada parecia acontecer. Esperou um sinal que não veio. Talvez o filho mais velho dos Langley tivesse falado a verdade, duas semanas atrás. A Deusa não passava de uma invenção dos adultos para enganar criancinhas bobas. Charlie já não era um bebê, tinha completado seis anos naquele mesmo mês. Devia parar com aquelas bobagens e enfrentar seu problema como um homem.
  O garoto olhou para a árvore. Vinte metros de altura, em uma estimativa otimista. A pipa azul presa quase no topo, entre as folhas já laranjas de outono. Engoliu em seco.
  - Que pena, parecia uma boa pipa.
  O pequeno infeliz olhou na direção da voz. O dia não estava muito frio, mas mesmo assim o homem usava um suéter de losangos por cima da camisa em tons pastéis e botas por cima da barra da calça marrom. Lembrou-se, por mais aleatório que fosse o comentário, da mãe fofocando com a vizinha sobre o Sr. Brown ser um homem divino.
  Aquele garoto Langley nunca foi muito inteligente mesmo.
  - O senhor pode me ajudar? Eu pedi pra Deusa me dar um vento bem forte, pra minha pipa poder sair, mas a única coisa que aconteceu foi você chegar.
  Por detrás das mechas rebeldes muito pretas que o tampavam o rosto, Charlie pôde ver um sorriso no rosto já muito gentil. Ele abaixou-se ao nível do menino, aproximando-se como para contar um segredo de muita importância.
  - Isso é porque a Deusa é muito esperta. Ela não pode fazer vento tão forte assim, só iria machucar as plantas. Mas tem um cara que conseguiria tirar essa pipa em um instantinho - o menino ouvia, atento a cada palavra -. O nome certo para o seu pedido é Enlil.
  Como mágica, um vento forte soprou. Algumas folhas da pícea soltaram-se e Charlie fechou os olhos instintivamente em proteção à areia subindo. Quando a risada do mais velho fez-se ouvir, a primeira coisa que ele viu foi sua pipa próxima dos dois. O menino deu um gritinho, feliz.
  - Sr. Brown, isso foi incrível! Mais que demais! - Charlie virou-se para o homem de expressão serena e interrompeu suas exclamações - O padre nunca falou de outros deuses.
  - É nosso segredinho, está bem? Qualquer problema com vento, já sabe pra quem pedir.
  O garoto sorriu e confirmou com a cabeça, correndo com sua pipa sem lembrar de agradecimentos em meio a sua felicidade. Não viu o olhar de cumplicidade lançado ao céu.

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